Novo ciclo de direitos de transmissão redefine estratégias financeiras dos clubes, analisa Luciano Colicchio Fernandes

Bruno Azeved
O novo ciclo de direitos de transmissão, analisado por Luciano Colicchio Fernandes, está mudando o planejamento financeiro dos clubes.

Fragmentação de pacotes, avanço do streaming e novos formatos de distribuição alteram a forma como o futebol é consumido e financiado.

A renegociação dos direitos de transmissão do futebol brasileiro inaugura um período de mudanças estruturais na economia do esporte, informa Luciano Colicchio Fernandes. A combinação entre contratos multiplataforma, pacotes segmentados e presença crescente de serviços de streaming redesenha o fluxo de receitas dos clubes e modifica a relação entre ligas, emissoras e torcedores.

O modelo tradicional, concentrado em poucos grandes contratos com televisão aberta e fechada, dá lugar a uma lógica mais fragmentada, na qual diferentes plataformas disputam janelas de exibição e perfis específicos de audiência. Essa transição amplia oportunidades, mas também aumenta a complexidade da gestão financeira dos clubes.

Da exclusividade ao ecossistema de plataformas

Por décadas, os direitos de transmissão funcionaram como fonte previsível e relativamente estável de receita. Com a entrada de plataformas digitais e novos formatos de consumo, o produto “jogo de futebol” passa a ser distribuído em múltiplos canais, com diferentes modelos de monetização, incluindo assinaturas, publicidade segmentada e acordos regionais.

Com novas regras e receitas em jogo, os clubes, na análise de Luciano Colicchio Fernandes, repensam suas estratégias financeiras.
Com novas regras e receitas em jogo, os clubes, na análise de Luciano Colicchio Fernandes, repensam suas estratégias financeiras.

Essa multiplicação de contratos permite diversificar receitas, mas reduz a simplicidade operacional. Clubes e ligas passam a negociar não apenas valores globais, mas também critérios de exposição, métricas de engajamento e cláusulas de flexibilidade para novas tecnologias de distribuição.

Luciano Colicchio Fernandes alude ainda que cresce a importância de dados de audiência mais granulares, capazes de demonstrar valor comercial para patrocinadores e parceiros, substituindo métricas tradicionais baseadas apenas em pontos de Ibope.

Impactos no planejamento financeiro e na previsibilidade de caixa

A fragmentação dos direitos altera a previsibilidade de receitas de médio e longo prazo. Enquanto contratos centralizados garantiam repasses regulares e mais estáveis, o novo modelo pode gerar variações maiores conforme desempenho esportivo, engajamento digital e atratividade comercial de cada clube, destaca Luciano Colicchio Fernandes.

Isso exige maior sofisticação na gestão orçamentária, principalmente tendo em vista que, as projeções financeiras precisam considerar cenários de desempenho, mudanças de plataforma e renegociações frequentes, além de investimentos próprios em comunicação e produção de conteúdo.

Ao mesmo tempo, clubes que conseguem fortalecer sua marca e sua base digital tendem a negociar em condições mais favoráveis, criando um ciclo no qual desempenho esportivo, presença online e capacidade comercial se retroalimentam.

O torcedor como variável econômica central

A disputa por direitos de transmissão deixa de ser apenas uma negociação entre empresas de mídia e passa a depender cada vez mais da capacidade de atrair e reter audiência. Nesse contexto, o torcedor deixa de ser apenas espectador e se torna parte ativa do modelo de negócios.

Conforme demonstra o entusiasta Luciano Colicchio Fernandes, a tendência é que as plataformas priorizem conteúdos complementares, interatividade e integração com redes sociais para ampliar tempo de permanência e coleta de dados, o que influencia decisões futuras de investimento e distribuição.

Esse movimento também cria desafios de acesso. A necessidade de múltiplas assinaturas e aplicativos pode gerar barreiras para parte do público, impactando o alcance das competições e, indiretamente, o valor comercial dos campeonatos no longo prazo.

Riscos de concentração e desigualdade competitiva

Embora a diversificação de contratos possa ampliar o mercado, ela também pode reforçar assimetrias entre clubes com maior apelo comercial e aqueles com menor visibilidade nacional. Times com grandes torcidas e forte presença digital tendem a atrair mais acordos e patrocínios associados à transmissão, enquanto outros permanecem dependentes de repasses coletivos.

Esse cenário recoloca no centro do debate mecanismos de redistribuição e políticas de equilíbrio competitivo, especialmente em ligas que buscam sustentabilidade de longo prazo. Sem algum grau de compensação, a diferença de receitas pode se refletir diretamente na qualidade técnica das competições.

Além disso, como expõe Luciano Colicchio Fernandes, a dependência crescente de plataformas digitais estrangeiras levanta discussões sobre soberania de dados, poder de barganha e regulação de serviços de streaming no setor esportivo.

Um mercado em transição permanente

O atual ciclo de direitos de transmissão não representa um ponto de chegada, mas uma etapa de transição em um mercado em rápida transformação. Novas tecnologias de distribuição, formatos curtos de conteúdo e integração com apostas e comércio eletrônico tendem a continuar remodelando o produto esportivo.

Na avaliação de Luciano Colicchio Fernandes, clubes e ligas que tratarem a mídia apenas como fonte de receita, e não como parte estratégica do relacionamento com o torcedor, correm o risco de perder relevância em um ambiente cada vez mais competitivo e orientado por dados.

O desafio, portanto, não é apenas negociar melhores contratos, mas desenvolver capacidade interna para operar em um ecossistema digital complexo, no qual comunicação, tecnologia e finanças passam a ser dimensões inseparáveis da gestão esportiva.

Autor: Bruno Azeved

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