Para muitas mulheres em situação de violência doméstica no Brasil, o primeiro lugar onde buscam ajuda não é uma delegacia, é uma comunidade religiosa que já faz parte de sua rotina. Isso acontece antes mesmo de qualquer contato com serviços especializados de proteção, muitas vezes porque o vínculo de fé já existia há anos antes da crise chegar.
A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, com atuação voltada ao apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, observa que reconhecer esse dado é essencial para entender onde a fé pode ajudar de verdade, e onde ela sozinha não é suficiente para garantir segurança concreta.
O que instituições religiosas costumam oferecer?
Uma comunidade de fé costuma oferecer algo que muitos serviços formais não têm de imediato: proximidade, continuidade e um vínculo de confiança que já existia antes da crise. Uma liderança religiosa que conhece a mulher e sua família há anos consegue perceber mudanças de comportamento que um atendimento pontual dificilmente notaria, simplesmente porque acompanha essa história de perto ao longo do tempo.
Esse tipo de proximidade também reduz uma barreira importante, a vergonha inicial de contar o que está vivendo pela primeira vez a alguém de fora de casa. Falar sobre um abuso costuma ser mais fácil com alguém já conhecido do que com um desconhecido atrás de um balcão de atendimento, o que explica por que a comunidade de fé costuma ser a primeira parada, e não a última, nesse tipo de trajetória.
O que serviços especializados oferecem que a fé sozinha não alcança?
Delegacias especializadas, centros de referência e equipes de saúde mental têm ferramentas técnicas específicas: medidas protetivas, avaliação de risco, acompanhamento psicológico estruturado ao longo do tempo. Nenhuma dessas ferramentas está ao alcance de uma liderança religiosa, por mais bem-intencionada e experiente que seja no acolhimento espiritual.
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que existe também um risco real quando a orientação religiosa, sem formação específica no tema, empurra a mulher a preservar o casamento a qualquer custo, mesmo diante de sinais claros de perigo. Esse tipo de conselho, mesmo vindo de boa intenção, pode prolongar a exposição ao risco em vez de reduzi-la, especialmente quando reforça a ideia de que denunciar o parceiro é uma falha pessoal ou espiritual.
Onde as duas frentes se cruzam e se fortalecem?
O ponto de maior eficácia costuma aparecer quando a comunidade religiosa reconhece o próprio limite e atua conscientemente como ponte, acolhendo a mulher com escuta atenta e, ao mesmo tempo, encaminhando-a para o atendimento especializado que consegue oferecer proteção concreta e imediata diante do risco.
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que lideranças religiosas preparadas para reconhecer sinais de risco e orientar corretamente costumam ser decisivas justamente por chegarem primeiro, antes mesmo de qualquer serviço público formal entrar em cena, o que faz da capacitação contínua dessas lideranças um investimento com potencial real de salvar vidas.
Por que nenhuma das duas substitui a outra?
Fé oferece pertencimento e sentido, enquanto serviços especializados oferecem proteção técnica e legal em situações de risco imediato e concreto. Tratar uma como suficiente sozinha, seja por excesso de confiança na comunidade, seja por desconfiança da fé como recurso legítimo, deixa lacunas que colocam a mulher em risco justamente no momento em que ela mais precisa de uma rede completa ao redor.
Para Taiza Tosatt Eleoterio, o cenário mais seguro para qualquer mulher em situação de violência é aquele em que fé e atendimento especializado caminham lado a lado, cada um cumprindo a parte que só ele consegue cumprir bem, sem competir pelo protagonismo da ajuda que ela recebe em cada etapa do processo.

