Elmar Juan Passos Varjão Bomfim, sendo CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, destaca que as cidades brasileiras vivem um momento de inflexão. Depois de décadas de crescimento desordenado, a combinação entre pressão demográfica, eventos climáticos extremos e novas exigências de mobilidade obrigou o poder público e a iniciativa privada a repensarem a forma de planejar o território.
Essa virada tem nome e endereço. Programas de requalificação de centros históricos, obras de macrodrenagem para conter enchentes, corredores de ônibus com prioridade semafórica e redes de iluminação pública inteligente já saíram do papel em capitais e cidades médias. O novo PAC e os marcos regulatórios do saneamento e das parcerias público-privadas criaram um ambiente de investimento que não existia há dez anos, ainda que a execução siga desigual entre as regiões do país.
O desafio, agora, é transformar projetos pontuais em política urbana consistente. Continue a leitura e veja que a diferença entre uma obra que resolve um problema e uma obra que cria outros três está, quase sempre, na qualidade do planejamento e na integração entre as diferentes camadas de infraestrutura, água, energia, transporte, dados e habitação.
O que torna um projeto urbano realmente inteligente?
O termo “cidade inteligente” foi usado à exaustão, mas o conceito que sobreviveu ao marketing é bastante pragmático: projeto inteligente é aquele que usa dados e tecnologia para tomar decisões melhores antes, durante e depois da obra. Isso começa no diagnóstico, com sensores, imagens de satélite e modelagem de tráfego substituindo estimativas genéricas, e continua na operação, com monitoramento contínuo de desempenho.
Na prática, isso significa que uma avenida nova não é apenas asfalto e drenagem. Ela precisa nascer com dutos para fibra óptica, previsão de eletropostos, calçadas acessíveis e soluções de drenagem sustentável, como jardins de chuva e pavimentos permeáveis. O custo adicional na fase de projeto é pequeno diante do que se economiza ao evitar intervenções futuras na mesma via, aponta Elmar Juan Passos Varjão Bomfim.
A modelagem BIM (Building Information Modeling), já obrigatória em parte das contratações públicas federais, é outro divisor de águas. Ao antecipar interferências entre redes de utilidades e estruturas, o modelo digital reduz aditivos contratuais, atrasos e retrabalho, três dos maiores vilões históricos da obra pública brasileira.
Mobilidade e saneamento: as frentes que mais pressionam as cidades
Nenhuma agenda urbana avança sem enfrentar dois gargalos crônicos. O primeiro é a mobilidade: o brasileiro das grandes metrópoles perde, em média, dezenas de horas por mês no trânsito, e a resposta passa por sistemas estruturantes de transporte coletivo, integração tarifária e infraestrutura cicloviária de verdade, não decorativa.

O segundo é o saneamento. O marco legal de 2020 estabeleceu metas de universalização de água e esgoto até 2033, o que destravou leilões bilionários e colocou em campo um volume de obras raro na história recente do setor. Estações de tratamento, redes coletoras e sistemas de drenagem urbana viraram prioridade de investimento em praticamente todos os estados.
Para Elmar Juan Passos Varjão Bomfim, CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, empresas do setor precisam estar preparadas para atuar em frentes simultâneas (infraestrutura pesada, obras especiais e recuperação estrutural) porque o ciclo de investimentos em curso combina obras novas com a modernização de ativos que envelheceram sem manutenção adequada.
Como a indústria da construção está respondendo a essa nova demanda?
Dentre o panorama apresentado, Elmar Juan Passos Varjão Bomfim ressalta que a transformação das cidades também está mudando o canteiro de obras. A industrialização da construção (com estruturas metálicas, pré-fabricados de concreto e construção modular) encurta prazos e reduz o impacto das obras sobre o entorno urbano, um fator decisivo quando se trabalha em vias movimentadas ou centros densos.
A digitalização da gestão de obras segue o mesmo caminho. Drones para medição de avanço físico, aplicativos de apontamento em tempo real e inteligência artificial aplicada ao planejamento vêm tornando o desempenho das obras mais previsível. Nesse ambiente, o investimento em gestão de projetos e produtividade se tornaram diferenciais de execução, acompanhando um movimento que se espalha pelo setor.
O que esperar das cidades brasileiras na próxima década?
Elmar Juan Passos Varjão Bomfim resume que o ciclo que se abre tende a ser menos de grandes gestos e mais de consistência. As cidades que saírem na frente serão aquelas que tratarem o desenvolvimento urbano como processo contínuo (com carteira de projetos estruturada, dados de qualidade e contratos bem desenhados) e não como uma sucessão de obras isoladas a cada mandato.
Para o setor de engenharia, isso representa uma década de trabalho denso: universalizar o saneamento, adaptar as cidades ao clima, renovar pontes e viadutos que chegaram ao limite da vida útil e construir a infraestrutura digital e energética que a economia exige. É na prática dos contratos e das concessões, e que se deve definir o padrão de qualidade de vida urbana das próximas gerações. As cidades brasileiras já provaram que sabem crescer; o desafio agora é provar que sabem crescer bem.

